Episódio CINEMA d+++. Na moral, eu já adorava o arco do Padre Albano, mas jamais pensei que eles conseguiriam deixar toda a situação ainda mais catártica. Esse capítulo 49 demonstra o equilíbrio preciso entre a progressão da tensão narrativa e a crítica sociopolítica da época. A farsa de Roque continua a se fechar sobre si mesma, e o embate entre Padre Hipólito e Florindo Abelha ilustra bem como a verdade pode ser incômoda para quem se beneficia da mentira. O prefeito, mesmo abalado com a posição do padre, prefere manter a farsa intacta, pois sabe que a cidade se sustenta sobre esse mito.
Ao mesmo tempo, o episódio levanta uma questão social importante: a creche para as funcionárias de Zé das Medalhas. O texto, com sua habitual ironia, exacerba e explicita o machismo estrutural da sociedade brasileira, trazendo frases como "se quisesse trabalhar, não teria filho" ou "mulher que tem filho tem que ficar em casa". Essas falas não são apenas de Zé das Medalhas, mas refletem um pensamento arraigado entre muitos pequenos burgueses e proletários de alta renda, que reproduzem uma visão conservadora e excludente sobre o papel da mulher no mercado de trabalho.
Zé das Medalhas, com sua postura detestável e mesquinha, chega ao cúmulo de se comparar a Rei Herodes, revelando o seu total desprezo pela questão social. O humor ácido do texto fica evidente na cena em que ele ri ao contar seu sonho de Herodes matando crianças, enquanto Padre Hipólito e sua esposa Lulu ficam horrorizados. Essa cena, ao mesmo tempo grotesca e satírica, reforça a caricatura do pequeno burguês autoritário, mesquinho e inconsequente.
Por outro lado, Padre Albano surge como a figura de subversão política, alguém que se coloca ao lado dos trabalhadores e das mulheres que precisam da creche. Sua visão cristã é materialista, voltada para as necessidades imediatas da comunidade, e não apenas para a fé transcendental. Isso o coloca em atrito até mesmo com Padre Hipólito, que, embora concorde com a creche, rejeita o caráter político do colega. Esse embate reflete tensões internas dentro da própria Igreja, entre um cristianismo de base e um mais tradicionalista.
O que faz Roque Santeiro tão genial é justamente esse equilíbrio entre o microcosmo de Asa Branca como um estudo de personagens e um estudo da sociedade brasileira. Cada diálogo, cada conflito e cada personagem servem como uma peça de um grande laboratório social, onde o Brasil é analisado com ironia, crítica e humor. Um dos melhores episódios até agora!
Ps: na boa, dona Marcelina só cresce no meu conceito como personagem. Ela é uma dor de cabeça constante nesses homens malucos kkkkkkkmkm